À procura do Priolo, o Tentilhão Mais Raro da Europa
Passei uma tarde inteira perto do Salto do Prego, nas colinas acima de Faial da Terra, absolutamente certo de que ouviria um priolo antes de o dia terminar. Tinha lido as descrições, sabia o canto que devia procurar e estava mesmo à beira do tipo certo de floresta. Não ouvi nada além do vento, alguns tordos comuns e a cascata. Foi nessa viagem que aprendi que esta ave não funciona da forma que eu imaginava.
Porque uma só floresta, e não a ilha inteira
Grande parte daquilo que se imagina quando se pensa na fauna açoriana — hortênsias, baleias, falésias negras — está espalhado generosamente por São Miguel. O priolo é o oposto disso. Este pequeno tentilhão de tom ruivo-acastanhado, também chamado tentilhão dos Açores, não reproduz em nenhum outro lugar do mundo além da floresta de laurissilva nativa da Serra da Tronqueira, um único bloco de mata nativa no extremo leste da ilha, dobrado em torno das encostas abaixo do Pico da Vara, o ponto mais alto de São Miguel, a 1.103 m.
E é só isso. Não as pastagens à volta, não a costa em Nordeste, não os miradouros onde param os turistas. Uma floresta. Durante uma boa parte do século XX acreditou-se que o priolo estava perto da extinção, agarrado a um fragmento de habitat tão pequeno que uma única tempestade forte ou uma nova vaga de desflorestação poderiam plausivelmente ter posto fim à espécie. Não acabou, mas a margem continua estreita, e a área de distribuição não cresceu ao ritmo da lenta recuperação da população.
O erro que quase cometi, e o que vejo outras pessoas cometerem
Antes daquela tarde no Salto do Prego, eu tinha assumido — sem examinar realmente essa suposição — que uma “ave nativa rara” numa pequena ilha atlântica se comportaria como, digamos, uma águia ou uma garça: visível se se tiver paciência, provável se se conduzir pela estrada certa à hora certa. Planeei a minha primeira tentativa em torno de um percurso panorâmico por Nordeste, parando em Ponta do Sossego e Ponta da Madrugada com os binóculos no banco do passageiro, meio à espera que um tentilhão atravessasse a estrada a saltitar.
Não é assim que funciona, e vale a pena dizê-lo com franqueza porque já vi outros visitantes fazerem exactamente a mesma suposição nesses mesmos miradouros. O priolo não é uma ave de beira de estrada. Vive dentro de floresta nativa de copado fechado — o emaranhado de louro-da-terra, urze-arbórea e azevinho que outrora cobria muito mais da ilha e que hoje sobrevive sobretudo neste único bloco relíquia — e alimenta-se de forma discreta, baixa e pouco visível, nada parecido com uma gaivota a voltear sobre um porto ou uma águia a aproveitar uma térmica.
Não se avista um priolo da mesma forma que se avista o sopro de uma baleia. É preciso entrar na floresta, a pé, normalmente com alguém que já conheça o seu canto e onde tem andado a alimentar-se nessa semana, e mesmo assim um avistamento é um verdadeiro acontecimento, não uma garantia.
O que realmente dá uma hipótese
A via realista para o território do priolo é o sistema de trilhos da Serra da Tronqueira, alcançado a partir do lado de Nordeste ou via Faial da Terra e a aproximação ao Salto do Prego. Partes centrais do habitat são geridas para conservação, e não para o turismo aberto, por isso isto não é um caso de aparecer com uma lista de verificação — um guia local que percorra estes trilhos regularmente, e que saiba ler os sinais discretos da floresta, vale muito mais do que a persistência sozinha.
Se o principal interesse for a fauna açoriana em geral, mais do que uma ave específica, um passeio de foco marinho conduzido por um biólogo é uma forma muito mais fácil de reservar para passar uma manhã com alguém cujo trabalho é ler a vida selvagem da ilha — recomendaria antes a expedição de observação de aves marinhas com guia biólogo à maioria dos visitantes do que os enviar à procura de um priolo sem qualquer conhecimento local.
Se estiver a montar um dia inteiro dedicado ao leste da ilha, combinar uma tentativa na Tronqueira com o trilho da cascata da Ribeira dos Caldeirões ou um circuito mais tranquilo por Furnas dá mais sentido ao trajecto — o passeio de dia inteiro por Furnas cobre as vilas da caldeira ao longo do caminho, ainda que não o leve ao habitat do priolo propriamente dito.
Para visitantes sem carro alugado que ainda assim queiram chegar aos pontos de partida dos trilhos mais remotos do leste, um passeio privado de jipe é a opção mais flexível, já que um motorista-guia pode ajustar o percurso ao tempo e às condições da estrada no próprio dia, algo que aqui pesa mais do que em quase qualquer outro ponto da ilha.
Porque a comparação com a fauna alpina não se sustenta
Penso que parte do motivo por que me enganei ao início é que o relevo de São Miguel — um maciço verde com um cume acima dos mil metros, névoa a deslizar pela floresta — parece que devia ter uma fauna à altura: uma ave de rapina de montanha, talvez, ou algo com presença real. Não tem, e isso não é uma lacuna, é o carácter real do lugar. Não existe aqui nenhum animal terrestre perigoso ou de grande porte — sem cobras, sem predadores, nada que mude a forma como se planeia uma caminhada. A história da fauna da ilha não é sobre tamanho ou espectáculo; é sobre raridade e endemismo.
O priolo é o exemplo mais claro disso: um pequeno tentilhão de aspecto discreto que por acaso é uma das aves mais raras do continente, sobrevivendo porque um bloco de floresta foi protegido a tempo, não porque a ilha seja alguma espécie de natureza intocada. São Miguel é, na maior parte, terra cultivada e habitada — gado nas estradas, sebes, pequenas vilas — o que faz com que esta única floresta relíquia pareça menos uma reserva natural em que se tropeça e mais algo que é preciso procurar deliberadamente.
Não ouvi um priolo naquela tarde no Salto do Prego. Voltei uma segunda vez, mais tarde na viagem, com um guia que trabalhava nos trilhos da Tronqueira há anos, e cerca de noventa minutos depois, no meio de um grupo de azevinhos, ali estava ele — discreto, breve, desaparecido de novo em segundos. Se for à procura, vá com essa expectativa: não um avistamento garantido, mas uma hipótese que vale a caminhada.
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