Porque É Que a Gorreana É a Última Plantação de Chá em Funcionamento na Europa
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Porque É Que a Gorreana É a Última Plantação de Chá em Funcionamento na Europa

Uma Cultura Que Não Devia Vingar Aqui

Da primeira vez que estive nas fileiras da Gorreana, o que me impressionou não foi a vista, embora a vista seja boa — arbustos de chá a descer em direção a um Atlântico cinzento, o tipo de litoral onde se esperaria ver couves a crescer, ou nada de nada. O que me impressionou foi a naturalidade daquilo. Ninguém me vendeu um bilhete. Não havia portão, nem guia com prancheta, nem fila. Uma mulher aparava a sebe de um campo como quem trata de um jardim, e a fábrica ao lado trabalhava exatamente como deve ter trabalhado há décadas, porque grande parte da maquinaria é mesmo dessa idade. Não parecia encenado, porque não é. É uma exploração agrícola em atividade que por acaso é a última do género em todo o continente, e que labuta desde 1883.

Essa data pesa mais do que parece. O chá é uma cultura asiática, e as tentativas europeias de o cultivar noutros pontos falharam, em geral — solo errado, chuva errada, luz errada. O que a costa norte de São Miguel tem, e que a maior parte da Europa não tem, é um clima muito específico e muito teimoso: húmido, ameno, raramente com geada, raramente escaldante, com solo vulcânico que retém a água como os pés de chá gostam.

É a mesma humidade atlântica que mantém Ribeira Grande verde e as sebes de hortênsias densas ao longo de todos os caminhos. Os fundadores da Gorreana não andavam atrás de uma novidade. Andavam atrás do dinheiro da seda e do chá, num século em que ambos eram negócio a sério, e a cultura simplesmente pegou aqui de uma forma que nunca conseguiu no continente português.

Porque Sobreviveu Quando Mais Nada Sobreviveu

O cultivo do chá nos Açores já teve concorrência. Várias propriedades tentaram a cultura ao longo dos séculos XIX e início do XX. Quase todas fecharam, batidas pelo chá colonial mais barato vindo da Ásia e por uma economia insular que se voltou para o leite e o ananás. A Gorreana e, mais tarde, a mais pequena propriedade de Porto Formoso são o que resta, ambas ao longo do mesmo trecho curto de costa a leste de Ribeira Grande. Isso não é bem uma coincidência de geografia, mas antes de teimosia — foram estas as duas explorações que continuaram a replantar, continuaram a pôr as secadoras a trabalhar, continuaram a vender para um nicho de mercado muito depois de deixar de ser um negócio óbvio.

O que se vê hoje na Gorreana é, em larga medida, original: as mesmas máquinas de enrolar e secar instaladas há gerações, oleadas e em funcionamento em vez de restauradas para efeito. Nada no chão de fábrica foi arranjado para os visitantes. É essa a parte que surpreende quem chega à espera de uma atração patrimonial construída à volta de uma loja de recordações. É mais parecido a entrar numa pequena fábrica um pouco antiquada que continua, sem alarido, a fazer o mesmo produto da mesma maneira há mais de um século, e que deixa qualquer pessoa passear por lá a ver.

Gorreana e Porto Formoso, Lado a Lado

GorreanaPorto Formoso
Fundação1883Mais pequena, mais recente como espaço de visita
EntradaGratuita, sem guiaPaga, com guia
DimensãoPropriedade maiorPropriedade mais pequena
LojaChás de marca própria à vendaChás de marca própria à venda
Visita típica45–60 minutosVisita guiada, mais curta

Já visitei as duas, e resisto à tentação de dizer que uma é melhor do que a outra, porque fazem coisas ligeiramente diferentes. A Gorreana é a que se percorre ao próprio ritmo, sem ninguém a narrar a visita. A Porto Formoso é mais pequena e cobra entrada, mas a visita guiada explica o contexto que na Gorreana fica por conta do visitante descobrir sozinho — o que as máquinas estão realmente a fazer, porque é que as folhas são colhidas numa fase específica, como o chá preto e o chá verde do mesmo arbusto acabam tão diferentes.

Se só houver tempo para uma, vá à Gorreana primeiro; é a propriedade mais antiga e a gratuita. Se o chá interessar mesmo, as duas juntas fazem uma manhã completa, e vale a pena ler um guia mais completo sobre a visita à Gorreana antes de ir, já que os padrões de abertura variam consoante a época.

Não é Uma Paragem Encenada na Estrada da Costa

Seria fácil percorrer a costa norte de carro, parar na Gorreana vinte minutos para fotografias entre os arbustos, e seguir viagem até Caldeira Velha ou às cascatas mais adiante sem realmente perceber o que se acabou de ver. Diria que isso desvaloriza o sítio. É um dos poucos lugares na Europa onde se pode ver toda uma cadeia agrícola a acontecer diante dos olhos — a folha no arbusto, a folha na secadora, a folha na lata — numa cultura que nada tem a ver com a lista habitual de exportações europeias de vinho, azeite e cereais.

Está, de certa forma, na mesma categoria das estufas de ananás perto de Ponta Delgada: outra cultura que não devia funcionar aqui, mantida viva pelo mesmo microclima atlântico, e que vale a pena ler em conjunto para perceber porque é que o chá e o ananás de São Miguel acabam na mesma prateleira de recordações.

Para quem preferir ver isto como parte de um dia mais longo em vez de uma paragem isolada, vários passeios pela ilha incluem esta visita. O passeio de um dia ao vulcão das Furnas e à plantação de chá combina a Gorreana com as aldeias da caldeira mais a leste, e uma caminhada guiada junto aos campos de chá com almoço incluído é uma forma mais tranquila de conhecer a propriedade, para quem preferir caminhar a conduzir.

Para um circuito mais amplo pela ilha que ainda assim passa pelas plantações, vale a pena comparar o passeio pela costa oeste com um itinerário para conduzir por conta própria — os campos e a fábrica da Gorreana continuam abertos com o tipo de tempo que cancelaria um passeio de barco, o que faz deste local uma alternativa segura.

O Que Diria a Quem Vai Pela Primeira Vez

Use calçado a que não se importe de molhar um pouco; os caminhos entre fileiras costumam estar húmidos mesmo quando não está a chover. Entre também no edifício da fábrica, não fique só nos campos — é ali que está a maquinaria, e é ali que o cheiro das folhas a secar diz realmente algo sobre o processo.

E compre o chá enquanto lá está, em vez de assumir que o vai encontrar depois; as marcas próprias da Gorreana não estão amplamente distribuídas fora da ilha, e os preços da loja são claramente melhores do que os das mesmas latas depois de enviadas. É um recado pequeno e pouco glamoroso numa viagem construída à volta de vulcões e nascentes termais, mas é a paragem da costa norte genuinamente insubstituível — não se consegue fazer isto em mais lado nenhum na Europa.

Perguntas Que Me Fazem Sobre a Visita à Gorreana

A visita à plantação de chá da Gorreana é gratuita?

Sim. Percorrer os campos e o chão de fábrica da Gorreana é, há muito, gratuito e sem guia, sem bilheteira e sem horários fixos de visita. Só se paga se se comprar chá na loja.

Qual é a diferença entre a Gorreana e a Porto Formoso?

A Gorreana é a propriedade maior e mais antiga, de entrada gratuita, com uma fábrica em funcionamento que se percorre por conta própria. A Porto Formoso é mais pequena, mais recente como espaço de visita, e a visita guiada é paga.

Quanto tempo demora uma visita à Gorreana?

A maioria das pessoas passa entre 45 minutos a uma hora: uma volta pelas fileiras dos campos, um olhar às máquinas de secagem e enrolamento quando estão a trabalhar, e uma passagem pela loja.

Pode-se comprar chá na Gorreana?

Sim, a loja vende os chás preto, verde e orange pekoe da própria marca Gorreana, embalados no local, a preços claramente mais baixos do que os das mesmas latas depois de exportadas.

A Gorreana é a única plantação de chá da Europa?

Não, mas quase. A Gorreana e a Porto Formoso, ambas na costa norte de São Miguel, são as duas únicas plantações de chá comerciais que restam no continente europeu.

Qual é a melhor altura para visitar durante a colheita do chá?

A colheita decorre, de forma geral, entre abril e setembro, pelo que os campos estão mais cheios e a fábrica mais ativa durante o verão; no inverno as máquinas trabalham menos, mas as fileiras continuam abertas para percorrer.

É preciso carro para chegar à Gorreana?

Um carro alugado é a forma prática de chegar, já que a Gorreana fica na estrada da costa a leste de Ribeira Grande, sem comboio e com serviço de autocarro limitado. É também uma paragem habitual em passeios organizados de um dia, incluindo o passeio privado de jipe pela ilha, para quem preferir não conduzir.

Para a lista mais completa do que há por perto, o guia da Gorreana e da Porto Formoso e o guia da excursão de um dia pela costa norte tratam ambos da logística com mais detalhe, e vale a pena ler porque é que São Miguel não são os Açores todos e como funcionam as estufas de ananás para conhecer o resto da história das culturas improváveis da ilha, além de uma passagem por Capelas, mais adiante na mesma costa.

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