O Que os Locais Realmente Comem em São Miguel
Além do Buraco no Chão nas Furnas
Todos os visitantes de São Miguel acabam por ouvir falar do cozido das Furnas — o guisado que cozinha durante horas num buraco no solo vulcânico quente, junto à Lagoa das Furnas. É uma história genuinamente boa, e nunca dissuadiria ninguém de o experimentar. Mas ao fim de algumas semanas na ilha, reparei numa coisa: nenhuma das pessoas que realmente conheci estava a comer cozido naquela semana.
Reserva-se com antecedência, cozinha-se durante cinco a sete horas sem qualquer fogo, e serve-se num punhado de restaurantes que recebem o pedido no dia anterior. É um acontecimento, não um almoço de terça-feira. O que as pessoas estavam realmente a comer, à minha frente, ao balcão das padarias e nas cozinhas, era algo mais discreto, e penso que diz mais sobre a ilha do que o famoso guisado subterrâneo.
O Bolo Lêvedo É o Verdadeiro Pão do Dia a Dia
Se há uma comida que segue o visitante por toda a São Miguel, é o bolo lêvedo. É um pão redondo, ligeiramente doce, mais macio do que um pãozinho, cozido numa chapa plana em vez de forno, pelo que nunca ganha crosta dura — apenas uma superfície pálida e ligeiramente tostada nos dois lados. A primeira vez que comi um foi aberto e barrado com manteiga, ao balcão de uma padaria em Ponta Delgada, antes das oito da manhã, de pé, ao lado de alguém que ia claramente a caminho do trabalho e pediu a mesma coisa sem olhar para nenhum menu.
Mais tarde na viagem comi um recheado com queijo local, como almoço rápido perto da Ribeira Grande, e ainda outro, numa versão mais doce, num café que o servia quase como sobremesa, com manteiga e mel. Aparece em todo o lado: supermercados, cafés de bomba de gasolina, buffets de casamentos, mesas de pequeno-almoço. Se tivesse de escolher um único prato que resume o que São Miguel come num dia normal, seria este, e não tem nada a ver com uma caldeira ou com um roteiro turístico — encontra-se com a mesma facilidade no Mercado da Graça em Ponta Delgada como em qualquer outro lado.
As Queijadas Pertencem a Vila Franca do Campo
A outra comida com que fui cruzando-me repetidamente tinha uma ligação mais clara a um lugar. As queijadas — pequenas tartes de creme com o topo firme e ligeiramente caramelizado — estão fortemente associadas a Vila Franca do Campo, a vila na costa sul que foi a capital original de São Miguel até um deslizamento de terras a soterrar em 1522. Comprei uma caixa numa paragem em Vila Franca, no regresso do Ilhéu de Vila Franca, mais por curiosidade do que outra coisa, e acabei por comer metade antes de chegar à Lagoa.
Não são uma iguaria rara, guardada para festivais; são um doce do dia a dia que acaba por levar o nome da vila que as faz, da mesma forma que um determinado estilo de padaria acaba por ficar ligado a um lugar quase por acaso. Se estiver a organizar um dia pela costa sul, vale a pena tratar as queijadas como parte da paragem, e não como algo comprado à pressa no final. Encontra-se a mesma história, em versão mais pequena, no guia sobre as tradições de padaria açorianas à volta do bolo lêvedo e das queijadas, de forma mais alargada.
Lapas, o Marisco Que Ninguém Põe num Postal
O cozido é fotografado constantemente; as lapas quase nunca são, e é em parte por isso que acho que importam aqui. As lapas são pequenos moluscos apanhados diretamente nas rochas vulcânicas ao longo da costa, depois grelhadas rapidamente com alho, manteiga e um fio de limão, normalmente servidas como entrada em vez de prato principal. Comi-as num sítio pequeno na costa perto de Caloura, e de novo mais adiante, na costa norte perto de Capelas, onde a pesca molda a vila há gerações.
Sabem à rocha de onde vieram — salgadas, ligeiramente elásticas, nada a ver com o marisco que se encontraria no continente. As lapas não aparecem num prato de menu turístico da forma como o cozido aparece; é preciso procurá-las, normalmente em sítios que também servem o que os barcos trouxeram naquela manhã. Para saber mais sobre este lado da gastronomia da ilha, o guia sobre lapas e marisco açoriano vai mais longe do que posso ir aqui.
O Ananás Cresce Sob Vidro, Não num Campo
Há um quarto ingrediente que fui vendo repetidamente nos menus e que me surpreendeu, na primeira vez que percebi de onde vinha: o ananás. Aparece em compotas, em bolos, em tábuas de queijo, até num licor. O que é fácil de não perceber é que os ananases de São Miguel não são cultivados em campos abertos — são criados em estufas compridas e baixas, sobretudo à volta da Fajã de Baixo, na periferia de Ponta Delgada, porque o clima nublado e ameno da ilha não consegue amadurecê-los ao ar livre. Um único fruto demora cerca de dois anos a crescer desta forma, o que é uma coisa estranha em que pensar da próxima vez que uma fatia aparecer ao lado de uma cunha de queijo local.
Não está ligado às Furnas nem a nenhuma caldeira; está ligado a uma faixa muito específica de terreno de estufas perto da capital, e vale a pena ver ao vivo se houver curiosidade sobre como funciona na prática — as estufas de ananás na Fajã de Baixo estão abertas a visitas. Entre as plantações de chá mais a norte e este cultivo de ananás mais a sul, as duas culturas de assinatura da ilha ficam em extremos opostos da mesma história.
Onde Isto Se Encaixa Se Só For Reservar Uma Refeição
Nada disto é um argumento contra o cozido — continuaria a dizer a qualquer pessoa que passasse um dia nas Furnas para o reservar, idealmente como parte de uma paragem mais alargada que inclua também o jardim da Terra Nostra e o terreno fumegante à volta da vila. Uma viagem de meio-dia às Furnas continua a ser uma das formas mais úteis de ver bem esse lado da ilha, cozido incluído se houver planeamento prévio. Mas se só se comer o cozido e nunca um bolo lêvedo, uma queijada de Vila Franca ou um prato de lapas, terá experimentado o único prato açoriano que todos fotografam e perdido quase tudo o resto que a ilha realmente come.
Um roteiro que também passa pela costa sul e por Vila Franca, como um tour privado de jipe pelas Furnas e pelo leste, tende a passar por mais destes momentos de comida do dia a dia do que uma paragem só nas Furnas. E se os dias estiverem divididos entre o oeste e o interior, um tour de um dia pelo oeste de São Miguel é uma forma razoável de encaixar um almoço costeiro perto de Caloura ou Ponta Delgada sem perder um dia inteiro a conduzir.
Comer bem aqui, no fundo, é sobretudo prestar atenção fora da única refeição de que todos falam. Bolo lêvedo ao pequeno-almoço, uma queijada de Vila Franca à tarde, lapas se aparecerem num menu junto à costa, e ananás que cresceu mais perto do que se imaginaria — é isso que a maior parte de São Miguel come, na maioria dos dias, cozido ou não. Vale a pena organizar a visita em torno dos ritmos mais calmos da ilha à hora de comer e das normas de gorjeta, já que ambas diferem do que uma viagem pela Europa continental poderia ter ensinado.
Comida do Dia a Dia em São Miguel: Perguntas Frequentes
O cozido das Furnas é o que as pessoas em São Miguel comem todos os dias?
Não. O cozido é cozinhado debaixo da terra perto da Lagoa das Furnas durante cinco a sete horas e precisa de ser reservado num restaurante, pelo que está mais próximo de uma ocasião especial ou de uma experiência para visitantes do que de comida do dia a dia. O que os ilhéus realmente comem é muito mais simples: pão, sopa, peixe, e o que a horta e o mar derem naquela semana.
O que é o bolo lêvedo?
Um pão macio, ligeiramente doce, cozido numa chapa seca em vez de forno, semelhante em forma a um muffin inglês. Come-se aberto e barrado com manteiga ao pequeno-almoço, usado com queijo ou fiambre para um almoço rápido, e vende-se em todas as padarias e supermercados da ilha.
De onde vem a queijada?
A queijada, uma pequena tarte de creme com o topo firme e ligeiramente caramelizado, está associada a Vila Franca do Campo, a vila na costa sul de São Miguel que foi a capital original da ilha até 1522. É um doce do dia a dia na ilha, não uma especialidade rara.
O que são lapas?
As lapas são pequenos moluscos apanhados nas rochas vulcânicas ao longo da costa de São Miguel. Costumam ser grelhadas rapidamente com alho, manteiga e limão e comidas como entrada, e são um dos pratos de marisco mais tipicamente locais, em vez de algo pensado para turistas.
Os ananases de São Miguel crescem ao ar livre?
Não. Os ananases de São Miguel são cultivados sob vidro, em estufas baixas, sobretudo à volta da Fajã de Baixo, perto de Ponta Delgada, porque o clima da ilha é demasiado ameno e nublado para o cultivo de ananás a céu aberto. Um único fruto demora cerca de dois anos a amadurecer desta forma.
As Furnas são o único local associado a uma comida local específica?
Não. As Furnas têm o cozido, mas Vila Franca do Campo tem as suas queijadas, a costa da ilha fornece lapas e outro marisco, e as estufas perto de Ponta Delgada fornecem o ananás que se vê nos menus por toda a ilha. A comida local em São Miguel está espalhada por várias vilas, não concentrada numa só.
Os visitantes podem experimentar bolo lêvedo e queijadas sem reservar nada?
Sim. Ao contrário do cozido, que precisa de reserva antecipada, o bolo lêvedo e as queijadas vendem-se todos os dias, ao balcão, em padarias e cafés por toda a ilha, incluindo no Mercado da Graça de Ponta Delgada.
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