Os Baleeiros Que Se Tornaram Observadores de Baleias
Não esperava que a antiga estação baleeira de Capelas me perturbasse da forma como perturbou. Tinha imaginado uma ruína, algo seguramente distante, o tipo de lugar que se fotografa e de onde se segue caminho. Em vez disso, há uma rampa gasta e lisa, um conjunto de edifícios cuja função ainda é legível para quem sabe o que está a ver, e um silêncio que nada tem de encenado. Um pescador reformado com quem falei junto à igreja disse-o sem rodeios: o pai dele trabalhara nos barcos. Não o bisavô. O pai.
Uma Caça Que Terminou Mais Recentemente do Que Se Assume
É fácil arrumar a caça à baleia nos Açores na gaveta da “história”, um capítulo encerrado algures no século XIX, a par dos antigos portos baleeiros da Nova Inglaterra. Não foi assim. A caça ao cachalote continuou nestas ilhas até aos anos 80, com as últimas operações de caça costeira a terminar por volta de 1984 a 1987, consoante a estação. Isso significa que pessoas vivas hoje, que gerem restaurantes e casas de hóspedes em São Miguel, cresceram em lares onde a baleação era o ofício de família, não uma peça de museu.
O método açoriano era costeiro: botes abertos de madeira, as baleeiras, remados e velejados a partir de terra em perseguição de cachalotes previamente avistados da costa. Não era uma operação industrial de navio-fábrica como as frotas do Oceano Austral. Era em pequena escala, perigosa, e inteiramente dependente de uma coisa: alguém em terra avistar a baleia primeiro.
O Ofício Que Nunca Chegou a Desaparecer
Esse alguém era o vigia. Um vigia ocupava um ponto de observação, normalmente uma pequena cabana caiada de branco num promontório com boa vista sobre o oceano, e vigiava o sopro, a breve exalação de um cachalote a emergir, por vezes visível apenas durante alguns segundos, a vários quilómetros de distância. Quando um vigia avistava um, sinalizava às tripulações à espera lá em baixo, historicamente com bandeiras ou foguetes, mais tarde por rádio, e os botes partiam.
Aqui está a parte que mais me surpreendeu, e que julgo escapar à maioria dos visitantes: este ofício não terminou quando a caça terminou. Quando a caça à baleia deixou de ser viável e a observação de baleias começou a desenvolver-se como atividade ao longo dos anos 90, os operadores dos barcos precisaram exatamente das mesmas competências que os baleeiros haviam precisado: alguém capaz de ler o mar a partir de terra e indicar a um barco para onde ir.
Em vários casos em São Miguel, a transição não foi metafórica. As mesmas famílias, os mesmos pontos de vigia, o mesmo olhar treinado para um sopro distante, foram simplesmente redirecionados de um arpão para uma câmara. Um vigia hoje pode passar a manhã no mesmo promontório onde o avô trabalhou, transmitindo por rádio coordenadas a um barco que transporta visitantes em vez de uma tripulação baleeira.
Se fizer um passeio de observação de baleias a partir de Ponta Delgada, o barco em que segue quase de certeza ainda depende deste sistema de vigia costeiro, e não apenas de sorte ou de sonar. Vale a pena perguntar ao guia sobre isto. A maioria tem orgulho em explicá-lo, porque é tanto a sua própria história de família como a história da ilha.
O Equívoco Que Vale a Pena Corrigir
O erro que quase cometi eu próprio, antes daquela conversa em Capelas, é assumir que a observação de baleias aqui é uma tradição antiga, algo contínuo, suave e ininterrupto, que remonta a gerações como forma de apreciação da natureza. Não é. Durante a maior parte do século XX, uma baleia a emergir junto a São Miguel significava uma caçada, não uma fotografia.
A observação de baleias, tal como os visitantes a conhecem, é uma indústria recente, construída nos anos 90 e 2000 sobre os destroços da que a precedeu, usando o mesmo conhecimento costeiro e, em alguns locais, as mesmas torres de vigia. Tratá-la como algo ancestral apaga precisamente a história que a torna interessante: uma verdadeira viragem, dentro da memória viva, de matar estes animais para os proteger e observar.
Essa viragem é também o motivo pelo qual os avistamentos nunca são prometidos por nenhum operador sério na ilha. A observação de baleias aqui é observação de animais selvagens, não um espetáculo guionado, e os operadores que se apoiam na antiga rede de vigias são honestos quanto ao facto de os avistamentos serem habituais, não garantidos.
Visitar as Antigas Estações Como Memória, Não Como Cenário
Encorajo a tratar Capelas, e os outros antigos pontos baleeiros espalhados pela costa norte da ilha perto do Nordeste, como locais de memória industrial, e não apenas como mais uma paragem bonita numa volta pela costa. Os edifícios são modestos e a sinalética é escassa, por isso ajuda ir já com algum contexto na cabeça, ou com um guia capaz de indicar para que servia cada estrutura: os armazéns dos botes, as fábricas onde a gordura era derretida, as cabanas de vigia no promontório acima.
Alguns operadores incluem isto em roteiros de dia inteiro mais amplos, em vez de o tratarem como paragem isolada, o que lhe fica bem, já que o local recompensa mais dez minutos tranquilos do que um longo desvio. Um dia a explorar os recantos menos visitados da ilha, incluindo locais como este costuma passar pela costa norte de qualquer forma.
Se estiver de escala breve em porto, uma excursão de meio dia a partir de Ponta Delgada pode por vezes ser organizada para incluir uma paragem costeira como esta, em vez de apenas os miradouros habituais, e um circuito de 4x4 de dia inteiro rumo ao Nordeste passa perto de vários antigos pontos baleeiros pelo caminho, com condutores que costumam conhecer bem a história local.
O Que Fiquei a Pensar
De pé naquela rampa, o que ficou comigo não foi propriamente culpa nem nostalgia, mas a pura compressão da linha do tempo. Uma indústria que moldou a economia da ilha e a sua arquitetura costeira durante mais de um século não se apagou gradualmente. Parou, em poucas décadas, e as mesmas pessoas que tinham feito o antigo ofício simplesmente encontraram um novo uso para a sua competência mais antiga: observar a água e ler o que ela estava prestes a revelar. Essa continuidade, humana e não romântica, é o que torna a história digna de conhecer antes de embarcar num barco a partir de Ponta Delgada à espera apenas de um passeio na natureza. Está, num sentido real, a continuar a depender do vigia.
Quem quiser aprofundar pode ler mais sobre os vigias e a sua história em Capelas, ou sobre o património baleeiro mais amplo das ilhas e a antiga estação baleeira de Capelas em particular. Para o lado atual da história, veja o que esperar num passeio de barco de observação de baleias, a melhor época do ano para ir, e um olhar honesto sobre por que os avistamentos nunca são garantidos.
A ilha acolhe também cachalotes e golfinhos residentes durante todo o ano, a par das baleias-azuis, comuns e sardinheiras em passagem na migração da primavera, uma distinção que os antigos baleeiros compreendiam tão bem como qualquer pessoa.
Uma visão mais ampla está no nosso guia de observação de baleias e golfinhos para São Miguel, e se estiver a planear uma viagem pela costa, o itinerário das baleias e do mar e o hub de atividades de observação de baleias são bons pontos de partida, juntamente com um breve passeio costeiro por Capelas.
História da Baleação e Observação de Baleias em São Miguel: O Que as Pessoas Perguntam
Quando parou a caça à baleia nos Açores?
A caça à baleia continuou nos Açores até aos anos 80, com as últimas campanhas de caça costeira a terminar por volta de 1984-1987, dependendo da ilha. Isso está dentro da memória viva de muitos ilhéus, não é uma nota de rodapé histórica distante.
A observação de baleias nos Açores está ligada à antiga indústria baleeira?
Sim, diretamente. Os vigias, observadores em terra que outrora perscrutavam o mar à procura de cachalotes e sinalizavam aos barcos baleeiros, exercem o mesmo papel, e em alguns casos são as mesmas famílias, hoje empregados para avistar baleias para barcos de observação.
O que é um vigia?
Um vigia é um observador costeiro colocado num ponto de vigia junto ao mar, tradicionalmente à procura do sopro de um cachalote a emergir. A função exigia paciência, boa vista e conhecimento das correntes e da luz locais, e mudou pouco de método desde a era da baleação.
É possível visitar uma antiga estação baleeira em São Miguel?
Sim. Capelas, na costa norte, tem uma antiga estação baleeira que sobrevive como marco histórico e não como local em funcionamento, e pode ser visitada como lugar de memória industrial, e não apenas como paragem cénica.
A observação de baleias foi sempre uma tradição nos Açores?
Não. É o equívoco mais comum. A observação de baleias como atividade turística só se desenvolveu depois de a caça à baleia ter terminado, sobretudo a partir dos anos 90, assente em infraestruturas e conhecimento humano deixados pela caça, e não como continuação de uma tradição ininterrupta.
A caça à baleia terminou por uma mudança de atitude local em relação às baleias?
Na maior parte, não, pelo menos não de início. A caça à baleia nos Açores tornou-se economicamente inviável à medida que a procura global de óleo de cachalote entrou em colapso e a pressão internacional contra a baleação aumentou; a mudança para ver as baleias como algo a proteger e observar veio depois, e ganhou força ao longo dos anos 90 e 2000.
Há hoje passeios de barco de observação de baleias perto de Capelas?
As saídas de observação de baleias em São Miguel partem sobretudo de Ponta Delgada, mas a rede de vigias que as apoia, e a que Capelas pertencia, ainda cobre grande parte da costa norte, o que é uma das razões pelas quais vale a pena o desvio até à antiga estação.
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